Portugal como nação independente foi fundado no início do século XII, pela vontade indómita e pela coragem dos seus homens e mulheres. A fé cristã foi sempre uma componente dominante da cultura e da religiosidade portuguesas que as suas gentes espalharam exponencialmente pelo mundo. Evoco a esse propósito as viagens apostólicas que o Papa Francisco realizou no fim do ano passado ao Japão e a Tailândia países que conheceram originalmente a fé cristã pela ação dos missionários portugueses que ali aportarem no século XVI.

Ontem como hoje afirmamos a nossa cultura e os nossos valores sempre dentro dos contextos variados em que vivemos. Garantir a independência e andar pelo mundo todo foi sempre a nossa saga como nação e como povo. Somos uma nação de migrantes, somos um povo de viajantes e gostamos de acolher os outros na nossa casa. A  diplomacia foi também um instrumento que utilizámos para garantir a independência, ajudar a construir a paz e o entendimento com os outros povos.

Celebrar o dia de Portugal é evocar os nossos antepassados, os nossos valores a nossa riqueza e o nosso potencial. É aprender com a nossa história para continuarmos a construir todos os dias o nosso futuro, junto com os outros povos.

A solidariedade é a resposta mais importante que a humanidade deve buscar neste momento de gravíssima crise sanitária, económica e social em que caímos nos últimos meses. Nós portugueses queremos ser parte das soluções, das respostas, das ações de reconstrução comuns que urge tomar. Queremos fazê-lo com e dentro da Europa, mas também sem esquecer que estamos no mundo e que a humanidade ou se salva junta ou decai toda.

Este planeta exige-nos, como lembra o Papa Francisco, que cuidemos dele com mais atenção, carinho e gratidão pelos recursos que nos são gratuitamente dados e dos quais usufruímos tantas vezes com rapina, ganância, avareza e desprezo pelo seu equilíbrio natural. No 5º ano da encíclica Laudato Si e no momento em que a Europa aposta fortemente num plano de reconversão ambiental queremos contribuir com a nossa parte. Por isso também queremos realizar em Lisboa logo que as restrições sanitárias o permitam, a Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos. Os portugueses conheceram bem no passado e vivem ainda hoje intensamente essa proximidade com os mares, o seu valor e a sua insubstituível reserva natural, que todos temos o dever de preservar.

Celebramos este ano os 800 anos da chegada de Santo António à península itálica. Natural de Lisboa quis servir Deus e os outros saindo das suas zonas de conforto e, partindo pelo mundo foi encontrar ali abrigo e caminho. Então como agora os migrantes e refugiados procuram abrigo fora das suas casas e querem trilhar novos caminhos para realizarem as suas vidas e missões. Evocando hoje o quão importante foi para o nosso compatriota Santo António ser acolhido no estrangeiro orgulhamo-nos também do quanto o seu contributo e a sua ação foram tão amplamente reconhecidos pelos povos de todo o mundo onde ele é venerado abundantemente

Pouca terra para nascer, toda a terra para morrer. É esta a síntese da nossa missão como povo. Olhar o mundo como parte da nossa terra comum onde todos nos podemos realizar se conseguirmos mostrar que não nos queremos apropriar egoisticamente dela, mas sim dar as mãos para a construção de um futuro melhor.

Roma, 10 de junho 2020

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